Análise Crítica do Documentário Clarita

clarita

              O documentário Clarita é autobiográfico e trata sobre o processo de Alzheimer de Clarita Martins Jessouron. Participou de diversos festivais dentro e fora do país e ganhou diversos prêmios, tendo como participação a atriz Laura Cardoso tais como: Melhor Atriz no Festival de Cinema do Paraná em 2008, Menção Honrosa no Mostra Vídeo Saúde da Fiocruz em 2008,Prêmio Margarida de Prata no Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB em 2009, Prêmio OCIC-SIGNIS no Jornada Internacional de Cinema da Bahia em 2007. De maneira narrativa em primeira pessoa ela nos conta sobre como a doença foi tomando conta da mãe desde o seu diagnóstico em 1991 e o processo de impacto para a família uma espécie de morte em vida.

              Descreve o dia a dia e como a sua mãe foi ficando demente, tendo visões em cima do armário, confusões mentais apesar da pouca consciência e até mesmo vergonha do seu sintoma. A pouca consciência a cerca dela mesma e do mundo foi passando por um processo de mudanças irreversíveis e cada vez mais diminuindo. A sua mãe passa a deixa frutas nos armários de roupas, sapatos no tanque, papel higiênico na geladeira, confundia-se com a vestimenta depois passou a chorar bastante, ficando agressiva, empurravam-nos e os batia quando eles queriam leva-la ao banheiro. A doença é descrita pela narradora de maneira que ganha até mesmo uma transcendência poética e como se uma espécie de espírito malévolo tenha tomado conta da mãe é descrita como “doença fantasma” que galopa lentamente pelo corpo e os faz assistir impotente a degeneração. Relata como cada pessoa recebe esse diagnósticos, as dúvidas, o impacto financeiro para uma família de classe média, pressões emocionais levando os indivíduos a angústia tendo como senso comum a discórdia. O Alzheimer pode ser definido
como:

A doença de Alzheimer (DA) é clinicamente dividida em dois subgrupos de acordo com seu o tempo de início. Dado antes dos 65 anos (DA de início precoce), se caracteriza por um declínio rápido das funções cognitivas. Esses casos são mais raros, correspondendo a 10% do total, e observa-se um acometimento familiar em sucessivas gerações diretamente relacionado a um padrão de transmissão autossômico dominante ligado aos cromossomos 1, 14 e 21 (SENI, 1996; ENGELHARDT et al., 1998 apud TRUZZI & LAKS, 2005).

              Podemos nos interrogarmos a cerca também do antes: quem era a mulher antes do Alzheimer? Será que os seus sentimentos foram ouvidos, será que o Alzheimer era a única defesa para a mesma ser vista? Que atmosfera o incompreensível ganha dimensão? Ou, meramente podemos atribuir a fatores científicos de cura e causa? Acerca do distanciamento do sujeito referente ao mundo externo, é verificado um desinvestimento libidinal muito severo, semelhante ao processo de luto e perda vivenciado por muitos. Acerca desse processo
Abrahão cita Freud:

Quanto aos fenômenos ou características psicológicas encontrada em pessoas muito idosas denominados por Freud de “entropia psíquica” (FREUD, 1969b, p. 259), não se referem à ausência de investimento libidinal, e sim ao desinvestimento libidinal em objetos externos e o retorno dessa libido para o Ego, como acontece no Narcisismo, o que dificulta seriamente um processo de análise, tornando-a muitas vezes interminável. Entropia, no vocabulário da língua portuguesa significa “sistema físico, a medida da energia não disponível para realização de trabalho, é uma palavra de origem grega que foi usada pela primeira vez em 1850 pelo físico alemão Rudolf Julius Clausius” (HOUAISS; VILLAR, 2001, p. 1169). A origem dessa palavra são os radicais gregos em (dentro) e tropee (mudança, troca), ou seja: troca interna.

              No documentário, não é visto nenhuma luz no fim do túnel referente ao Alzheimer,
todos os pontos de vista são analisados demasiadamente a partir de um outro que observa.
Também não se verificou de maneira contundente os aspectos subjetivos da casualidade. Em um relato geral era “uma mulher saudável que gostava do mar, vivia bem e com saúde”, também tem que se observar que a narradora é filha e as barreiras emocionais construídas são elencadas através de um forte impacto emocional. A resistência da família na tentativa de sempre buscar a pessoa “de antes” no processo de elaboração do luto.

              Dor, resistências, mágoas, tudo isso se liquefaz diante de um sujeito que não possui
mais um contrato social responsável pelo seu pensamento. Diante disso surge de forma muito espontânea e até mesmo natural o ego dos demais, através das perguntas: porque ela se foi? Terá cumprido sua missão? “Porque fez isso comigo”? Não que este ponto de vista colocasse o outro à espreita, sob uma espécie de julgamento, mas retira o processo de análise sob as compreensões e casualidades da doença:

Há uma negação sistemática, alguns recusam-se mesmo a acompanhar as consultas ao médico, outros, com essa postura, não dão nenhum crédito às situações narradas sobre o dia a dia do idoso com Alzheimer. Muitos filhos de pais idosos com Alzheimer, embora não aceitem  a realidade,  sentem alguma culpa e se limitam a contribuir financeiramente. A explicação possível desta atitude de rejeição se  deve provavelmente ao medo de imaginar seu ente amado se “apagando” aos poucos e se sentir impotente.

              Os papeis invertidos pela dependência do Alzheimer para realizar atividades cotidianas comuns. Que muitas vezes se torna um fardo para muitas famílias. As memórias são vistas num ângulo mais expressivo sob o ponto de vista do passado.

“ A perca da capacidade de falar por um idioma indecifrável e por fim a ausência de
voz. Passando a viver num absoluto silêncio. O olhar perdido no vazio, tornar-se alheia atudo, onde parece nada ver e sentir.”

              Temos sempre um não dito que assegura a angústia e âncora uma contra-força daquele que sente-se como impotente. O não dito se acumula na sombra da desesperança, é alimentado dia a dia pela insuficiência. Por fim, é verificado uma tentativa de ressiginificar a dor:

“Que é porque morremos que a vida tem valor, que o gesto tem sentido.”

REFERÊNCIAS

ABRAHÃO, Emily De Souza. O desvelar da velhice: as contribuições da psicanálise na busca de sentidos para a experiência do envelhecer. Revista da SPAGESP – Sociedade de Psicoterapias Analíticas Grupais do Estado de São Paulo, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 57-65, mai./17. 10.

RUZZI, Annibal; LAKS, Jerson. Doença de Alzheimer esporádica de início precoce. Ver. Psiquiatria Clínica, São Paulo, v. 32, n;1, 2005. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832005000100006&lng=en&nrm=iso Acesso em 20 de Janeiro de 2015.

TERCEIRA IDADE MELHOR. Porque alguns familiares não aceitam o diagnóstico de Alzheimer? Disponível em: <http://www.terceiraidademelhor.com.br/porque-alguns- familiares-nao- aceitam-o-diagnostico-de- alzheimer/>. Acesso em: 14 out. 2016.

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