Falta…

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Créditos da Imagem: 

http://thecreatorsproject.vice.com/en_au/blog/turning-nail-polish-spills-into-psychedelic-exploding-forms

Tanto que me faça a peneira do leito da miséria, onde minhas raízes me abarcaram tanto abruptos ao peito rendido em mágoa e dor. De manhã cedo, ela me acorda com cheiro de café, o lençol branco ainda frio.
– Vem tomar café, já tá pronto.
Seu canto a me interpelar mistura-se em poesia e me abraça rendido.

Hoje o sol nasceu atrás de casa, ninguém dormiu nessa madrugada. O sol nasceu diferente e resolvi colocar o nome FALTA nele. Isso mesmo, quero que o Sol que coloquei o nome FALTA me aqueça!

Me aqueça Sol de FALTA, me aqueça Sol de FALTA ! Me aqueça Sol de FALTA! Eu suplicava num silêncio intenso debaixo de uma árvore, enquanto ninguém dava pela minha ausência. As plantas agora rodopiavam, me senti como quem passa numa tábua fina, por duas extremidades cortantes. Estava com o coração rasgado diante da frieza como tudo ocorreu. Não adiantou… eu fiquei até encandeado, exausto, com raiva do Sol de FALTA, eu não sabia onde colocar tanta dor ao saber que mãe não existia mais. Mãe não se levantava daquela caixa que os homens trouxeram, estava deitada. Cheguei a até pertinho, e chorando muito disse:

– Acorda mãe, deixa de brincadeira.

Zezinho me dizia que ela tinha morrido . Eu fiquei com raiva dele. Ouvi a minha tia dizendo  como num canto monossílabo ao povo da família que Deus colocará ela num bom lugar! Deus vai ajudar minha mãe nessa caminhada. Quando chega a hora, fosse feita a sua vontade. Eu senti foi raiva de Deus, se ele gostava da minha Mãe não tiraria ela de mim.

Mas porque Deus seria tão frio comigo?

De repente senti….

Senti falta hoje de mãe, as lembranças que me aqueceram foram a sopa quentinha que ela fazia no início da noite, as histórias que me contava antes de dormir, as cócegas nos pés dizendo que ela era um leão (eu tinha medo). E antes de findar a noite, me cobria com um lençol azul bem fininho e dizia:

-Está pronto?

– Não  mãe, agora não!

-Está pronto?

– Sim Mãe, me cubra (eu fechava os olhos e esperava aquele mundo cumprido em cima de mim). Ela me cobria com amor do mais puro linho, me cobria com palavras repletas de fantasias e ainda dizia:

– Cuidado com o Leão aí nesse escuro menino. Vai se ele te pega!

Caia na gargalhada e lá vinha ela me fazer cócegas. Mexer comigo coberto como se ela fosse um leão embalsamando a sua presa.

Só ela conseguia me colocar em manto, me colocar medo bom. Antes de sair do meu quarto eu a espiava para ter a certeza de que ela estava ali viva! E só quando eu escutava o rangi da porta fechada que realmente conseguia “pegar” no sono.

As saudades que me aqueceram de mãe, foi também as do “puxavancos” nas orelhas, dos aperreios quando eu me escondia no túnel em construção perto de casa.

Eu me sentia como um pintinho piando debaixo de sua mãe.

Hoje eu senti falta de mãe. Minha mãe amanheceu morta esta manhã.

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