Meu Pai que matava cachorros

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“Rendilha-se os pontos à miúde. As feridas narcísicas. Ao bom modo de arar e prevê a terra, cada linha pontiaguda que desvalesse no terço do bom menino. A luz do candeeiro se apagou na época das possíveis renascenças. Ao Credo e o grito que o silêncio constrange. A todas as almas dos cachorros!”

 

 

Quando pequeno e morava em Itabaiana num vilarejo, localizado na Zona Rural, era comum a prática de se matar cachorros, quando estes eram acometidos de uma grave doença terminal ou praticava atos ilícitos que não se correspondiam a natureza de leis criadas pela própria vizinhança. Por exemplo, não se existia a possibilidade de levá-lo ao veterinário ou comprar algum medicamento que sanasse tais doenças quando antes mesmo de serem terminais. Como se dizia, não existia dinheiro nem para curar as doenças humanas, não era aceito também o fato que o cachorro matasse uma galinha , e esquecia-se que ele cometeu tal crime porque estava com fome, devidos a motivos incompetentes de abandono por algum ser humano (desabitado da casa do ser). Lembro com muito orgulho da primeira vez que enfrentei o meu pai que era temido por todos de casa, inclusive pela minha própria mãe. Estava ele armado de uma espingarda, objeto comum a todo homem de sítio, para matar uma “cachorra” que estava comendo as galinhas das minhas tias.  Me atravessei na frente de seu caminho e disse que ele não iria cometer tal barbárie, que seria mais fácil o mesmo preparar um “prato de comida” e alimentá-la. Imediatamente ele mandou que eu saísse da sua frente e deu um tiro de lado espantando o pobre animal. Aquele dia foi a “anunciação” que aguardava para os nossos futuros conflitos ideológicos. Eu defendendo um instinto animal de sobrevivência contra um instinto animal de incompetência de pensar. O fato é que agora eu sei que estava matando ele simbolicamente.

Dentro de casa ninguém estava louco para me colocar a devida defesa, apesar de todos saberem que perante a justiça humana, divina e contratualmente racional que aquele ato de matar um inocente animal estava totalmente errado. Fiquei deitado na cama cochichando com minha irmã, que defendera silenciosamente a minha bravura, apesar dos riscos.  Meu pai, esbravejava todos os dias numa voz trovejante a minha ousadia de enfrentá-lo.  Os passos dele iam e viam pelo corredor da casa arrastando seus chinelo no cimento, pela sua forma típica de andar. Passaram-se os tempos e os nervos das tensões foram se acumulando; não apanhei por este motivo, mas continuei enfrentando-o. Certa vez, ele contou para minha mãe que nunca mais mataria nenhum animal. O último cachorro que matara lhe pediu ajuda após o tiro, seus olhos clamavam piedade, ainda de pé foi ao encontro dele e morreu em seus pés.

Ronaldo Mullan

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