A despedida do amigo vivo: uma simbiose pulverizada

Os parafusos estão folgados, falta a chave de fenda para apertar os pulsos soltos. A alma do dissidente já não pode reclamar da solidão, às vezes o coração baleado ao chegar da guerra em casa, encontra seu cão de estimação no final do túnel que lambe as suas chagas das mãos, sem saber que são chagas e proporcionando uma cura incomparável. Agora já nos apresentamos como dois desconhecidos e ecoa a voz do sorriso passado. O peito que antes era ninado pelo abraço, sofre o aperto das milhas de distâncias. Dentro dele ainda existe o caroço da saudade que bate descompassado, perdoa, que deseja estar junto, que quer bem.  O vazio que fica de uma amizade que não foi mais cultivada é pesado, é o próprio descolamento do que antes era uno, expandido e unificado. Essa volta ao próprio corpo mais real que imaginário causa desconforto, decepção e desamparo. De repente, você pensa em falar com o amigo que nunca mais deu notícias e automaticamente vem a lembrança de quantas vezes você realizou esse ato e não teve mais o retorno ou se teve, fora tão fragmentado. Então a recusa para não parecer um “carente” pedindo atenção pode ser até mesmo um ato estranhamente saudável. O ponto descrito acima revela uma das tormentas inevitáveis ao longo da caravela da vida e simplesmente na tempestade em alto-mar você tem que costurar o que foi furado, ou pela perca da força esperar que alguém lhe resgate. Com o tempo você modifica automaticamente o conceito de amizade.

Heart duas fridas
https://duasfridas.wordpress.com/2014/05/06/remendado/

Existem amigos que se formam pela própria semelhança dos sapatos usados. Estes parecem que percorreram os mesmo caminhos que você e tropeçaram nas mesmas pedras, escorregaram nos mesmos córregos caindo na primeira mão que o ajudou. Existe amigo da infância, estes são árvores frondosas porque  têm raízes fixas e passados congruentes, conhece os seus defeitos mais do que ninguém. O amigo que morreu e se tornou uma nota musical na sua vida que, por vezes, brota em seus olhos a lágrima como um punhal. Existem amigos tolos, que lhe faz rir sem parar colocando a dinâmica necessária a vida e faz florescer esperanças. Existem amigos…. de vários tipos, tópicos e trópicos. Aqueles que cortam a linha do meridiano para lhe ver.

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http://www.boredpanda.com/aurora-borealis-double-exposure/?image_id=Double-Exposure-Of-Animals-In-The-Aurora-Borealis2__880.jpg

Um segredo contado é que na linha rodoviária e aeropórtica da saudade, naqueles últimos momentos de despedidas eu lhe vi e me vi dentro no reflexo do carro; era você e eu numa mesma imagem. Eu não consegui dizer adeus com os meus olhos, me fixei no meu próprio reflexo e vi um céu de saudade atrás de mim. Um aceno e outro aceno, fui ficando oco das imagens que fugiam do espaço, as lágrimas não permitidas percorreram e lavaram os meus olhos.  Uma gota de vazio caída batia forte dentro de mim. Até o regresso! Quando talvez as cores das paredes estiverem desbotadas ou pintadas com o puro ouro.

Ronaldo Mullan

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