O Sujeito da Alteridade no novo Clipe de Filipe Catto

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Filipe Catto sem dúvida é uma das vozes masculinas mais  marcantes na nova mpb. No seu estilo único, podemos perceber algumas marcas da contemporaneidade, uma delas é o novo conceito do masculino. Em Filipe o homem canta o próprio homem da alteridade, desvinculado do convencionalismo patético deixados pelas marcas da época vitoriana. O homem que não canta só a mulher (canta a mulher e o homem) o não reconhecível, os elos perdidos, as vicissitudes do sujeito.

O que vemos na música Dias e Noites do Filipe Catto é a própria denotação do singular, a descoberta de que o uno sempre foi a pluridimensão dos outros; ser um é ser múltiplos. É no encontro de mim no outro que nasce a possibilidade de ser o “si mesmo”. Dentro dessa emergência, criamos extensão e gesto:

Já nem sei dizer quantos nomes, cores, lábios  
Nesses lábios roubei  
Por onde esbarro o perigo  
Onde madrugada já não passa  
De uma armadilha 

Em Já nem sei quantos nomes, cores lábios. Nesses lábios roubei demonstra o abandono da razão de pensar, deixando o pensamento de  que o passado revelaria algo do ser ( lugar do desejo); a memória não guia mais o sujeito. Portanto o encontro com o uno se revela pelo passado dos múltiplos. Já em nesses lábios roubei, o pronome nesse revela um tempo anterior aproximando ao ato de quem fala. O que se rouba dos lábios do outro? Quais são as cores? A quem pertence os nomes? As perguntas dos versos não estão preocupadas com as respostas imediatas, mas com o pensamento reflexivo que transformam em pistas da experiência do ser na trajetória dos versos.

Já em “Por onde esbarro o perigo/ Onde madrugada já não passa/De uma armadilha” o sujeito revela um ambiente em que o seu próprio eu dissemina a despreocupação da passividade de sofrer diante dos perigos. Na sua música, se é para morrer por inalar o ar “de tantos instantes iguais”  (empobrecimento da experiência), respira-se os ares que o perigo proporciona. Tem-se a experiência de perigo para então sentir a própria existência, a liberação de qualquer amarra que delimite o eu, dando a si o direito do próprio gozo, com a detonação da possibilidade de todos os instantes.

O ambiente da alteridade

Na música e vídeo Dias e Noites o ambiente da alteridade se dá por meios líquidos onde na água vejo o meu reflexo se alterar no próprio reflexo; ora sou eu ora sou “outros”. O outro também trás a nossa transcendência da significância que vem ao encontro daquilo que eu sou.  Gilberto Safra no livro A Face Estética do Self nos traz um quadro mais integral sobre a hermenêutica do sujeito:

            No encontro humano, em que a experiência estética inaugura a possibilidade de existir como ser frente a um outro, temos a entrada do indivíduo em uma capacidade de articulação de símbolos de self, que constituem e apresentam as vivências de seu existir em seu estilo singular de ser. São imagens que adquirem importância, pois são presença de ser.

Podemos nos perguntar o porquê desse ser se alterar, oscilação? Oras, se o indivíduo se permite dentro do vir-a-ser da vontade é porque o mesmo perdeu o medo de se dispersar, ocorre o abandono da angústia no exercício da metamorfose. Há a alternância no sentido de se conhecer. Clarice Lispector no conto Águas do Mundo diz: “É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem”. Neste sentido, abrir mão de convencionalismos baratos, questionamentos frágeis para novas visões, sair das vestimentas que nos são habituais é sem dúvidas um ação corajosa.

O tempo da alteridade 

Apostando alto demais 
Por onde me devora o infinito 
Hoje essa cidade nos arrasta 
Por mais um dia, por aí 
Por querer te levar por outros finais 

No vídeo se mesclam os elementos masculinos e femininos na profusão de cores e sentidos criando a sustentação de si mesmo, numa atmosfera refrescante, atingindo o núcleo central do sentimento oceânico. A própria vivência alcança a essência sagrada no contraste. O lado avesso do filme de uma máquina fotográfica também traz uma radiografia significante fora do desbotamento que um mero rosto se apresenta, é antes de tudo, construção da própria vida. Nos versos acima há o clímax da experimentação avulsa de si e do outro ( o qual não lhe deu limites). Quando diz -Por onde o infinito me devora-, podemos perceber a angústia diante do tempo cósmico que nunca é dilacerado ou é tateado (por estas características devorador). A cidade puxa-os para frente, com ou sem consentimento do sujeito, por mais um dia, em algum lugar, fora do seu eixo, abandonando qualquer vontade do ego. Por último traz o desejo inédito  que não é sucumbido. O eu te levo a algum lugar, sem a necessidade de um intermédio, os indivíduos degusta o fim como a liberdade do vir-a-ser.

Já que amanhã serão dias e noites 
De tantos instantes iguais 
Que tal calar agora e assistir 
A cidade ao redor, inteira despertar 
Apagar as pistas e seguir? 

Deste modo, a única maneira de sentir é calando-se. No silêncio podemos ouvir o barulho e sussurros dos gestos ou a própria ausência desses. O silêncio denota e acusa os nossos próprios gritos. A cidade que acorda é a mesma que possui os mesmo instantes iguais, a madrugada que antes não passava é a mesma que espera a cidade acordar. O que foi preciso foi a alteridade, a quietação dos próprios objetos internos para que esses dessem lugar a própria ausência de existir. Agora não mais importa. O raiar do novo dia espera que sejamos descobertos, trilhamos o caminho não pelos “outros iguais” mas pela nossas próprias ressignificações. Apagar as pistas de quem já trilhou o caminho, se perder, se errar para possibilitar as descobertas.

Ronaldo Mullan

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4 comentários sobre “O Sujeito da Alteridade no novo Clipe de Filipe Catto

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