Por Enquanto- Uma situação nietzschiana

Cássia+Eller+-3 ddaf9524d2cfef7e3bda2136d53301fc

Fecho a porta da cozinha  e fico a imaginar se ela aceitaria tal condição. A voz dela me vem no meio da noite, suave tranquila, linda como as estrelas no trópico de Câncer. Enalteço o tom e imagino tais ideias passando pela sua cabeça, ouço a voz dizendo as situações específicas e aqueles pensamentos, como um zunzunzum na cabeça, surgem para mim como um mantra -as consoantes estridentes das palavras se desviando das vogais sibilando os troncos,  tirando as espinhas desse ínfimo coração quando o mar abre a boca. Tudo isto  me acalma. Gosto de imaginar as situações . Mas nada adianta, mesmo me ajustando feito um móbile na hora e ao vivo das coisas, não consigo colocar no presente momento o que penso. Mas tudo se abre no instante em que o Sol desponta caramelo, as flores se abrem também no Verão exalando o seu mel; escorre como um leito em seio que quero, pois caminhar por entre as pétalas antes que as flores de girassóis sejam postas na mesa.

Ouvi a música Por Enquanto, composição de Renato Russo cantada na voz da Cássia e lembrei do Amor Fati (amor ao destino) do Nietzsche, fiz uma breve busca pela internet e me senti alegre por juntar (pelo o que penso)  a primeira vez, ao meu ver enganoso, os dois. Não seria uma má ideia – A Cássia com o bigodudo, ambos explosivos e providos de genial sensibilidade em cantar e “tocar” a vida. Salve o Renato!

Mudaram as estações, nada mudou

Mas eu sei que alguma coisa aconteceu

Tá tudo assim, tão diferente

……………………………………………………..

Se lembra quando a gente

Chegou um dia a acreditar

Que tudo era pra sempre

Sem saber que o pra sempre sempre acaba

……………………………………………………..

Mas nada vai conseguir mudar o que ficou

Quando penso em alguém, só penso em você

E aí, então, estamos bem

……………………………………………………..

Mesmo com tantos motivos

Pra deixar tudo como está

Nem desistir, nem tentar

Agora tanto faz

Estamos indo de volta pra casa

Por Enquanto, começa com as mudanças natural do tempo Mudaram as estações, nada mudou/Mas eu sei que alguma coisa aconteceu/Tá tudo assim, tão diferente“. Podemos dizer que o eu-lírico não sente mais a mesma afinidade com o seu par, e de modo implícito percebe racionalmente as alterações do tempo, porém, a intuição percebe que “alguma coisa aconteceu”. Este algo coisificável se dá pela ação sentimental (estranhamento dentro de um corpo relacionável) antes saudável, agora sente um patógeno; algo na consciência emite um sinal vermelho . Numa monotonia, o que unia ele(a) com o par romântico se torna poroso e estagnado. A força das transformações que o tempo trouxe no ambiente, não teve um novo impulso e sim retração do que antes os unia.

Na terceira estrofe, observamos o acolhimento do acontecido. É nela que o eu-lírico assume o prazer de pensar nas lembrança do amado(a). Como numa fotografia, o que por si adquire consistência são as lembranças do passado. O “estar bem” só possui consistência no pensamento não-concreto; portanto, idealizado.

E Nietzsche, cita em Ecce Homo :

Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá -lo (…) mas amá-lo…”

Esta admissão do destino, traz a ideia cosmológica do eterno retorno, no sentido  ético “fazer tudo outra vez se lhe dessem outra oportunidade de viver” e na música Por Enquanto, podemos observar no trecho abaixo a situação final sobre o desgaste no relacionamento que iniciou com as declarações infinitas da paixão :

Mesmo com tantos motivos

Pra deixar tudo como está

Nem desistir, nem tentar

Agora tanto faz

Estamos indo de volta pra casa“.

Remetendo  a arqueologia do  pensamento nietzschiano encontramos também ao livro Vontade de Potência: ” Tudo aquilo que atinge a totalidade morre, porque a morte é uma totalidade alcançada, enquanto a vida é a busca da totalidade”. O “não desistir, nem tentar” nos coloca no plano do niilismo passivo do viver sem moção, nenhuma modificação na ação do destino. No “voltar pra casa” observamos a transmutação de valores empobrecidos, desligamento, aceitação. É em casa que os filhos muitas vezes obtém o acolhimento dos pais, do “lar doce lar”; um lugar que é somente nosso.

E o desejo e valores de quem ama?

“E sempre mentimos, mentimos bem quando amamos, mentimos diante de nós mesmos, e a respeito de nós mesmo: parece que nos transfiguramos, tornamo-nos mais fortes mais ricos mais perfeitos, somos mais perfeitos… o que ama vale mais, é mais forte.”

Vemos as infinitas declarações de amor exclamada pela paixão Se lembra quando a gente chegou um dia acreditar, que tudo era pra sempre. Sem saber que o pra sempre, sempre acaba.” Seria a força rarefeita em não seguir com uma nova visão? Ou a retração de forças por se chegar ao ápice (morte) como citado acima ?  Coloquemos aqui a divisão do amor e paixão. Pego carona na analogia que um amigo fez com um avião: a paixão seria o decolar -“a turbulência”. O amor seria a linha horizontal, tranquila e tênue da viagem.

Apertemos as cordas do violão, para os dedos ficarem mais finos, para tocarmos as canções mais dolorosas. Antes se empurra a voz do precipício. Não, a voz não cai do precipício em que estava. Preciso do medo da coragem de seguir em frente . Difícil é aceitar, como diz Arnaldo Jabour, no início do  texto Relacionamentos que tudo tem um começo, meio e fim.

NIETZSCHE, Friedrich. Vontade de Potência – Parte I e II. São Paulo, Editora Escala, 2010.

NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. São Paulo: Ediouro, 1998.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s