AS MÚLTIPLAS FACES DA MORTE

amoedo

Sócrates antes da morte lembrou a Crípton para pagar uma dívida de um galo a Esculápio.  Em algumas famílias de abelhas os zangões morrem após copularem. A cabeça de João Batista rolava no chão a pedido do rei Herodes tomado por raiva. Jesus Cristo a ofereceu pela humanidade, enquanto sangrava sob uma coroa de espinhos. Em Totem e Tabu, livro de Freud publicado em 1913, explica  a relação edípica,  numa primitiva tribo os filhos matam o pai  e em seguida comem-no, por culpa eles acabam internalizando a figura paterna, deixando-a mais forte.  Por último Winnicott,  disse que queria estar vivo mesmo na hora da sua morte. Dentre  tantas outras mortes  ao longo da história da humanidade a mesma pode ser vista como algo terrivelmente marcado, assombroso,  impensável ou um episódio libertador. Nesta última instância é o que acontece com alguns pacientes terminais de câncer, por exemplo. Sobre a morte,  alguns se entregam como quem caísse num abismo de si, engasgados pela própria voz que cai no fundo do poço. Outros relutam, criam verdadeiras trincheiras, tentam viver da melhor forma possível, prolongando o tempo perante a sua morte e a morte dos “outros”. E por falar em tempo, para alguns os ponteiros do relógio perderam o freio e  ele que oscilava no pêndulo amarelo tranquilo, estar atrasando o presente que não chega na hora marcada e é ferozmente engolido pelas mãos da ansiedade. O estômago que não se enche de inconstância ainda estar vazio porque o próprio corpo não conheceu a sua voz interior.  O fato é a comum frase que ouvimos: “A única certeza da vida é a morte”!

Será mesmo? A que morte essa frase se refere? Só a do corpo que será despida por vermes? Embalsamada por formóis na esperança que a ciência lhe traga a vida? Ou a  cremada na síntese cinza? O poeta paraíbano Augusto dos Anjos diria:

É a Morte – esta carnívora assanhada –
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come…
– Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Quem escapa da morte? O destino sorriu diversas vezes para Hitler, que ironia! Já Sherzad do conto As Mil e Uma Noites, conseguiu vendar os olhos da morte enquanto esta corria feito louca a sua procura. Ela prendeu a atenção do  rei Shariar, sabia que se contasse o final das histórias morreria . Saber contar histórias é algo que atribui significado ao tempo.  Lya Luft no seu livro O Lado Fatal , um dos melhores que já li,  escreveu sobre a morte do seu esposo e em um dos trechos finais diz:  “A maior homenagem que se pode fazer a alguém que morreu é voltar a viver da melhor forma possível.” Em todas as sociedades encontramos o seu  modo único de encarar a morte. Em uma tribo Celta, onde hoje fica localizada a Irlanda, antes dos missionários cristãos condenarem tal prática, A morte era comemorada no ritual chamado “Shahaim” que mais tarde se transformou no Dia dos Mortos (Halloween), comemoravam a passagem para uma vida melhor uma forma também de homenagear a saudade.

A morte, inequívoca pois!

 Seja ela em luto ou em comemoração a dor da morte é única e cada indivíduo vivencia de maneira singular, trancado ou liberto “de”. Que pousemos nossas mãos para aquela maçã que beija o escuro, a cada segundo a dor e melancolia espalda, não traremos nada senão o silêncio. Que seja feita o principal intuito, que ao calar, acalente e dignifique. Seja na hora que o sino bate, seja na hora que  vento parte, que seja na hora… Na hora da nossa morte. Amém!

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