Notas psicanalíticas do filme JAMIE MARKS IS DEAD: análise crítica

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O filme conta a história de Adam (Cameron Monaghan) a sua crise na adolescência, atrelado aos conflitos familiares e principalmente a sua relação com Jamie Marks (Noah Silver) e Gracie (Morgan Saylor), ambos também adolescentes que  vivencia os seus problemas típicos da idade. Com especial ênfase a Jamie, um fantasma que permeia os dois mundos e gruda no seu novo amigo, sua carência afetiva liga-se com a culpa do seu novo amigo, então disputado pela atenção da Gracie. Um suspense que envolve a polaridade do físico e extracorpóreo, na centralização dos aspectos miméticos da identidade dos jovens em ambientes melancólicos e poéticos.

Numa primeira cena, vemos Jamie sendo violentado por um grupo de jovens. A típica cena do Bullying, ele se encontra no banheiro enquanto um grupo de meninos tentam abrir a porta o chamando de “bicha”. Após arrombarem a porta do banheiro,  urinam em cima dele. Adam vê a cena, mas falha diante do comportamento abusivo.

Eros e Tânatos

 Bullying: Segundo um artigo de QUEIROZ e TÉRZIS (2012), pode ser definido como um tipo de agressão física, virtual ou psicológica acarretando enormes prejuízos ao sujeito no campo social, emocional e psicológico. Vinculado a um a um funcionamento primitivo que atua como um princípio de prazer em decorrência da frustração do sujeito frete a realidade. Pode ser compreendido como o acting-out, que seriam materiais reprimidos que se repetem em forma de pensamentos e atuações impulsivas. Também pode ser compreendido com a manifestação da pulsão de morte, que seria o desejo de destruição e agressividade. Geralmente praticado em grupo porque nele o indivíduo perde suas inibições individuais e os instintos são destrutivos emergem com maior facilidade, conforme também Freud analisou em Psicologia de grupo e Análise do Ego.

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Alguns dias se passam e então o corpo de Jamie Marks é  encontrado de forma misteriosa próximo a um rio por Gracie que morava nas extremidades do local e limpava rochas para sua coleção, numa ponte sob o rio. O corpo estava deitado apenas de cueca e óculos côncavo com a lente direita quebrada. A hipótese levantada pelos policiais é que o mesmo fora vítima de homicídio ou suicídio.   A notícia assusta a pequena cidade fria do norte do estado  de Nova York, sendo noticiada várias vezes na TV. Certo dia, ainda abalado pelo crime, Adam caminha nas proximidades do local e encontra Gracie fazendo uma espécie de ritual como um gesto de compaixão pelo morto. Os dois conversam e logo em seguida ela o chama para conhecer a sua coleção de Rock em seu quarto. Na casa de Gracie, Adam vê a aparição de Jamie, parado próximo as árvores vestido apenas de uma cueca branca, do mesmo aspecto em que foi encontrado morto. Assusta-se com a presença fantasmagórica, percebe que a sua nova amiga também o vê. Ela esbraveja para  ele se afastar da sua janela, pois não há nada a ser feito pela alma do morto. Porém, Adam ver essa situação como forma de se desculpar da sua omissão na cena do Bullying. Esta ótica da repressão e culpa é explicada em termos psicanalíticos por Sigmundo Freud, em seu livro O Mal-estar da Civilização como:

“Quando uma pulsão instintiva sucumbe ao recalcamento, seus elementos libidinosos se transformam em sintomas, seus elementos agressivos em sentimento de culpa” (FREUD, 1930[1929] 1975, p.139).

Tais exigências do superego faz com que Adam se aproxime de Jamie.

superego: representa a moralidade, as leis e as regras sociais de forma geral. Normalmente esta estrutura estará sempre se confrontando com o ID.

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É noite e logo após sair da casa de Gracie Adam o encontra Jamie  que diz que nunca imagina que alguém pudesse o ver. Por uma comunicação inconsciente Jamie sabe que ele quer ficar no mesmo local na qual foi encontrado morto e ordena que ele tire o casaco e  acalça e se deite onde o mesmo morreu, manda fechar os olhos se sentindo entusiasmado por alguém ter disponibilizado ajudada. Jamie adormece e acorda desse “delírio” que teve com um fantasma, por um casal que o deixa em casa.

Ao chegar na sua residência e se recompor no seu quarto, escuta um barulho no seu guarda-roupa, abre-o, descobre que é o Jamie ainda molhado e com as mesma vestimentas. Os contatos entre os dois se estreita, Adam entrega as suas roupas para ele vestir e o filme vai criando uma áurea de dúvida sobre a sua sexualidade.

Adam vive uma relação não muito harmoniosa com a sua família. Sua mãe se torna amiga da mulher que provocou um acidente que a deixou tetraplégica numa cadeira de rodas no que para ele é insuportável o fato de encontrar com ela na sua casa, além das implicâncias com o seu irmão mais velho. Essa fase de conflitos entre os membro familiares, também é muito comum na tão falada normalidade-patológica da adolescência e sua dificuldade de aceitar o mundo adulto, é verificado a flutuação da identidade numa combinação instável de vários corpos e personagens. Tudo isso acompanhando do desenvolvimento biológico, sobretudo a uma produção mais acentuada dos hormônios, que nos meninos a testosterona leva a um nível mais desorganizador comparado as meninas.

Grande parte dos conflitos familiares dão-se em torno do ritmo de desenvolvimento do adolescente ruma à independência (Arnett, 1999). As discussões entre os adolescentes e os seus pais costumam se concentrar em “quanto” ou “quando”: que grau de liberdade os adolescentes devem ter para planejar sua próprias atividades ou quando irão poder pegar o carro da família. (PAPALIA, DIANE E. 2006, p. 429).

Jamie possui uma carência afetiva muito grande, seu interesse não é só descobrir por intermédio do seu amigo o seu agressor. O mesmo gruda no Adam, exercendo uma forte influência. Não é à toa que ele leva o seu amigo para armário o escuro. Pois é dentro da escuridão que temos a melhor visão do que se passa dentro de nós ( lhe alimentando afetivamente) é um momento reflexivo. Porém ao sair do Armário Adam observa o óbvio, não ver nada aparentemente fantástico. Sempre pede para o seu amigo dizer palavras sussurradas ao seu pé do ouvido e sente prazer com isso mesmo que as palavras sejam espinhosas. Eu diria que ele sente aquilo que Gaston Bachelard diz num poético e saboroso livro chamado A Chama de uma Vela:

“A companhia vivida dos objetos familiares no traz de volta à vida lenta. Peto deles somos tomados por uma fantasia que tem um passado e que no entanto reencontra a cada vez um frescor. Os objetos guardados no “armário de coisas” (chosier), nesse estreito mudeu de coisas que gostamos, são talismãs de fantasia.” (A Chama de Uma Vela- Bachelard)

Não tenho nenhuma dúvida que Jamie alimentava a sua lâmpada interna, pois a sua escuridão sucumbia-o.

A dúvida sobre a sexualidade de Adam

Na adolescência ocorre como se é sabido a descoberta da sexualidade. Há de se pergunta sobre a sexualidade de Adam, será que ele é bissexual, homo ou hétero? É durante a adolescência na elaboração da fase edípica que é observado aspectos de conduta feminino nos meninos e masculinos nas meninas; são resquícios de uma bissexualidade mal resolvida.

Fase Edípica:

Imagem disponível em http://just-in-art.com/shop/146/
Imagem disponível em http://just-in-art.com/shop/146/

Condição da criança de negar à fantasia de que a mesma tem o domínio de uma bissexualidade. Esta negação está atrelada a percepção que existe uma terceira pessoa (o pai) e tem uma ligação profunda à Cena Primária (os pais sexualmente juntos e a vontade de tomar o lugar do pai ou da mãe). Ficar excluída a cena primária cria na criança a sensação de desamparo e sentimento de traição gerando também a vingança, sentimentos possessivos, etc. É nessa rivalidade com o sexo oposto através do mecanismo de projeção e introjeção que cria-se o Complexo de Castração. É através da configuração negativa do Complexo de Édipo, onde o mesmo é invertido, que a criança desejará o genitor do mesmo sexo acarretando como consequência a formação do superego e os modelos de identificação. Daí vem a tão famosa frase de Freud: O superego o herdeiro direto do complexo de Édipo.

Adam portanto, poderia está revivendo a expressão de uma bissexualidade perdida e desejada, através do indivíduo do mesmo sexo (James). A história do filme se desenrolará sobre o contato entre o mundo metafísico, a crise de identidade, a descoberta da sexualidade e os conflitos familiares.

Em resumo é um ótimo filme sobre essa atmosfera de conflito entre a vida e a morte e as vicissitudes da adolescência.

Referências:

PAPALIA, Diane; OLDS, Sally. Desenvolvimento Humano. 7. ed. Porto Alegre: Artes Médicas,
2008.

Freud, S. (1996i). O mal-estar na civilização. In S. Freud. Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud (vol. 21). Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1930).

ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Mauricio. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. 10. ed. Porto Alegre: Artes Médicas

Zimerman, D. E. (1999). Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Uma abordagem didática. Porto Alegre: Artes Médicas.

QUEIROZ, Renata Fernandes Pimenta; TÉRZIS, Antonios. O BULLYING COMO FENÔMENO PSÍQUICO PRODUZIDO NO GRUPO. Anais do Xvii Encontro de Iniciação Científic, São Paulo, p.1-7, 26 ago. 2012. Disponível em: <http://www.puc-campinas.edu.br/websist/Rep/Sic08/Resumo/2012821_184514_323823635_resENA.pdf&gt;. Acesso em: 28 abr. 2015.

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