Ser Vínculo, ser roupa limpa, ser palavra…

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Créditos da Imagem: ClaraLieuFineArt

RECEITA PARA LAVAR PALAVRA SUJA

 

Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza. Por exemplo a palavra vida.

Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.

São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.

Agora nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,que é capaz de esvaziar o vigor da língua.

O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.

O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras.
Culpa, por exemplo, a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.

Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.

Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.

A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.

Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.

Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite, não a seu lado mas sobre seu corpo.

Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.

Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela, então você tem uma palavra limpa.

Uma palavra LIMPA é uma palavra possível.  (Vinviane Mosé)

Iniciou esse texto com o poema da Viviane Mosé, filósofa capixaba na qual admiro muito. Receita para lavar palavra suja nos dá uma correspondência muito interessante dos nossos sentimentos, laços, afetos e vínculos. Dele podemos observar a palavra como mecanismo de poder, mas que por “desuso” e “sujeira” ganham um novo significado, mostrando o empobrecimento dos laços afetivos e significantes daquele que fala. A palavra é reduzida ao meramente falar, devendo passar por um processo de limpeza e até mesma de “batida na pedra”, não misturadas com outras para adquirir nova vida. Em uma interessante passagem bíblica, em João nos diz o seguinte:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

Ele estava no princípio com Deus.”

Foucault também elucida e complementa essa ideia, dizendo:

“Sob sua forma primeira, quando foi dada aos homens pelo próprio Deus, a linguagem era uma signo das coisas absolutamente certo e transparente, porque se lhes assemelhava” (FOUCAULT, 1999).

Portanto, observamos a palavra como a corrente mais vital em seu teor comunicativo pertencente ao homem, é através dela que se passam os sentimentos conforme a percepção e emoções de quem o observa. As palavras formam vínculos e para isso vale ressaltar aquele quem fala (como representação), o tom de como se fala e logicamente o interesse por trás delas. Ganhando poder, elas exercem influências, ações, estados e vontades no outro, como coloca Foucault em As Palavras e as Coisas (1966).

Se é conhecido bem que nem sempre se diz através dos sons, se fala também através características não-verbais. Aliás, se diz muito quando não se fala verbalmente. Os sinais que o outro emite também pode ser interpretado como por exemplo, entre um gesto de recusa e desejo, e outro vai sempre interpretar por intermédios do seu mundo particular.

Lavar palavras sujas exige ressignificação dos afetos na ótica da vida. E o que seria portanto essas relações vinculares e de qual maneira se constroem?

                                                           “Vínculo é tudo aquilo que liga, ata ou aperta. É nó, é ílame. É o que dá nexo e sentido as palavras e à própria vida. Vincular-se       significa relacionar com… Eternizar-se… Perpetuar-e, imortalizar-se. A busca de vínculos equivale à busca pela própria vida, pela sua preservação, pelo seu desenvolvimento, pela sua continuidade… “(Anton, 2002, p.18 apud. IARA L. CAMARATTA ANTON, 2012,p.20)

Sua formação vai muito além do que muitas pessoas imaginam. As relações vinculares se formam desde os primeiros anos de vida e o ambiente é de fundamental importância para o amadurecimento emocional de cada indivíduo. E por mais paradoxal a ideia pode parecer, é na capacidade que a pessoa estabelece de ficar sozinho consigo mesmo, que o amadurecimento emocional se faz emergir. Não estou dizendo que o Outro não exerça a sua função, afinal somos relações de intermédios. É o que diz a frase de um livro chamado Adultecer A dor e o prazer de tornar-se adulto:

“Ser Adulto é ser só.”

Pode-se pensar que essa pequena frase é dura, insensível e até mesmo amarga. Em Winnicott no livro O Ambiente e o Processo de Maturação ele vai nos revelar que a capacidade de estar sozinho consigo mesmo é um fenômeno extraordinário, utilizará um termo muito interessante chamado Solidão Sofisticada (WINNICOTT,1979). Particularmente, gosto muito dessa solidão e acredito que a melhor forma de estabelecermos um contato íntimo com a tão assustadora, é através da poesia, da ligação estabelecida com nós com o banho de “cuia” tomado na lua cheia com o nosso escuro.

Referências:

 WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os Processos de Maturação: Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2007. 136 p.17.

FOUCAULT, M. As palavras e as coisas. Trad. Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

IARA L. CAMARATTA ANTON A escolha do Cônjugue: um entendimento sistêmico e psicodinâmico. 2. ed. Porto Alegre: ARTMED, 2012. 448

OUTEIRAL, José. Do adolescer ao adultecer. In: OUTEIRAL, José; MOURA, Luiza; SANTOS, Stela dos. Adultecer Ador e o prazer de torna-se adulto. RJ: Revinter, 2008

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